Carta para alguém que está perdido

Quem nunca se sentiu perdido, atire a primeira pedra. Seja você em que idade for, se já teve o privilégio de refletir sobre que passo dar na vida, já se viu sem certeza sobre que direção tomar. Privilégio, sim, pois isto são dons do tal livre arbítrio. Os pobres ( ou afortunados) animais parecem não ter este tipo de preocupação. A natureza lhes impõe padrões rígidos de comportamento. A nossa liberdade é fato, mas é claro, é limitada pelos nossos condicionamentos mentais e restrições sociais. Porém, nossa habilidade de reagir a situações é vasta. Com tanta escolha a fazer, haja responsabilidade. E as consequências? Será que queremos realmente encará-las? Ou talvez seja melhor viver paralisado sem fazer escolhas ( o que já é uma escolha)? Ou deixar que os outros as façam por nós?

Certa vez na noite de Ano Novo conheci alguém perdido. Dois dias depois, ele me procurou pois andava curioso com um comentário que fiz. Regado a vinho, esperando a passagem do Ano, havia confessado que tinha demorado um tempo para eu me encontrar. O comentário ecoou em sua cabeça e o fez vir até mim para me dizer que se sentia perdido, sem saber o que fazer. Foi aí que me perguntou: ” O que você fez para se achar?” Pergunta difícil esta, não? Dei uma resposta naquele momento querendo ajudá-lo. Porém, logo depois resolvi fazer a reflexão e o acolhimento necessários que uma grande pergunta como aquela merecia. As linhas que se seguem são algumas dicas ao encontro de si.

(Rita Lee canta a trajetória de alguém que sai numa jornada procurando se encontrar)

O início do auto-conhecimento se dá na infância. De acordo com o sociólogo Cooley, é na relação com o outro, principalmente através dos pais e pessoas significativas, que vamos em parte nos definindo. Se estes lhe vêem como bonito, você tende a se ver da mesma forma. E assim, crescemos enfrentando as crises inerentes ao desenvolvimento psicológico até atingirmos a adolescência. É nesta fase que a busca pela identidade é crítica. É comum o adolescente se descobrir pela oposição aos pais e adesão a um grupo que lhe é afim. Anos difíceis estes. Quem disse que ser humano é fácil? Muitas vezes passamos da adolescência e continuamos sem ter um sentido claro da nossa identidade. Se este é o seu caso, o antigo conselho grego continua valendo “Conhece a ti mesmo”. Se você passa o tempo todo ocupado com tarefas externas e com eventos sociais, você terá poucas chances de aprofundar seu auto-conhecimento. As formas para tal prática sao as mais variadas, mas quase todas giram em torno da introspecção. Se quiser se achar, precisará conhecer melhor quem habita este corpo que Deus lhe deu. Dedique alguns minutos do dia a ficar em silêncio, sentindo seu corpo, ouvindo seus pensamentos na tentativa de se conhecer. Melhor ainda, escreva tudo o que vem à sua cabeça, crie diálogos entre partes conflitantes suas, faça-se perguntas, cultive-as ou ouse respondê-las. Outra dica: escreva numa folha dez características que o definem e peça a amigos (que você se dá bem) para fazer o mesmo sobre você. Leia as respostas deles e veja se você se surpreendeu, ou se confirmou algo.

O psicólogo William James sugere que nossa identidade é formada pelo eu material ( ligado ao corpo e posses materiais), o eu social (relacionado a como interagimos com os outros) e o eu espiritual ( conectado aos nossos pensamentos e emoções). Quem é você baseado nesta teoria? Um pessoa franzina? Extrovertida? De emoções intensas? Sabendo quem você é, fica mais fácil saber o que você realmente quer fazer.

E no meio disso tudo lembro que 2011 está acabando. Pois é, meu caro, o tempo está passando. Graças a Deus! Quem disse que o tempo só serve pra trazer rugas e fazer cair os cabelos?! Ele sedimenta algumas ‘poeiras’ psíquicas dentro de si. As loucuras hormonais da adolescência se acalmam, as experiências vão nos ensinando e as coisas ganham novas perspectivas. Isto facilita o encontro de si. Na verdade quando afastamos os ruídos que abafam a voz do coração e silenciamos, voltamos ao lugar de onde nunca saímos: o nosso eu.

(Texto originalmente publicado pro Jornal Tribuna do Norte, 17 de Fevereiro de 2008. Pare ler no original, clique aqui.)

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