Mudando estados emocionais através da música com Aline de Lima

Aline de Lima cantando no Bairro Alto Café Cultural

Em uma noite simpática de verão em Paris peguei o metrô  e caminhei em direção ao Bairro Alto Café Cultural para ver a apresentação de uma talentosa cantora brasileira radicada na França. Assim que cheguei o pequeno e aconchegante Café já estava a todo vapor. As pessoas compartilhavam risadas entre amigos, e faziam novas amizades no ambiente acolhedor. A voz e o som da chanteuse já estava no ar. Ela cuidadosamente dedilhava ao violão suas notas melodiosas e sua voz lançava um feitiço que aos poucos foi envolvendo a todos. Aline de Lima, esta cantora que tive o prazer de conhecer, é assim: calorosa, simpática e acolhedora. A sua música também carrega estas mesmas qualidades: de forma sutil nos convida a nos enternecer, a sentir-se em casa, e a cantar juntos.

Aline de Lima é do Maranhão, estado do Nordeste do Brasil cuja capital foi fundada por exploradores franceses. Em uma trajetória inversa ela veio à Paris e por aqui descobre-se e aprimora-se como cantora e artista. Lança seu primeiro disco em 2006 pela gravadora Naive produzido pelo renomado artista brasileiro Vinicius Cantuária. Agora com três discos autorais ela prepara-se para partir para um som mais contemporâneo.

Aline de Lima

Nesta entrevista descontraída, Aline fala de suas experiências com a música, de suas fontes de inspiração e arrisca algumas receitas musicais de como usar a música brasileira para algumas dificuldades emocionais.

Aline começou a compor ainda na puberdade, aos 12 anos, porém  guardava em segredo as canções. Para ela letra de musica é de extrema importância. Todo este tempo e intimidade com a criação musical talvez a tenha levado a descobrir uma relação sonora com a palavra:

“O que eu escrevo é mais musical do que poético. Tem uma ligação mais direta com a sonoridade rítmica da palavra. Eu já compus muito baseado na cadência das letras que aquele ritmo tava me dando. “

Aline encontra inspiração para suas canções na apreciação do trabalho artístico, seja através do contato com artes visuais ou com a música de outros compositores. Um dos seus compositores favoritos é Gilberto Gil, de quem já gravou a canção Ladeira da Preguiça (Açaí, Naive 2008).:

Gilberto Gil

“Eu amo o Gilberto Gil. Ele tem uma versatilidade que poucos artistas tem: canta forró, canta reggae, canta em inglês, pop, afoxé, xote… Eu admiro nele esta capacidade. Pra mim cada ritmo assim como cada estilo musical é como falar línguas diferentes. Eu acho que O Gil dá este exemplo pros artistas de fazer este esforço de se comunicar com o outro na língua deles. Mesmo se a gente tem o nosso sotaque, a nossa maneira de fazer. O brasileiro sempre filtra muita coisa e faz sempre da maneira própria dele que é muito legal. “

Para Aline a música torna-se mais rica a medida em que é inclusiva. Ela cita o trabalho de seu ex-produtor Vinicius Cantuária como um trabalho que dialoga com várias vertentes sonoras:

“Acho muito legal isto de sair misturando estilos de música latina com jazz, com rock, com funk. Gosto muito do Vinicius Cantuária. Na verdade gosto mais do trabalho dele desde que ele se mudou pra Nova York. Adoro essa fase dele ter se envolvido com Arto Lindsay, Jun Miyake, Marc Ribot, toda esta galera meio avant-guarde de Nova York. Isto traz uma sonoridade tão interessante até pra música da gente. O Brasil precisa mais ouvir este lado deste pessoal de Nova York.”

Em tantos encontros pessoais com a música Aline já experienciou o poder da música em alterar ou transformar seu humor. Certa vez diante de uma situação difícil a música inesperadamente surgiu oferecendo recursos para uma nova experiência:

“Eu estava num período difícil quando eu estava começando a fazer música. Eu ainda ano tava vivendo de música. Eu passei uns 6 meses numa situação em que eu precisava de emprego pra garantir meu aluguel. Então eu consegui um emprego num lugar ano muito acolhedor. Mas foi o que pintou. Era muito hostil. Eu sou muito sensível ao que as pessoas estão ouvindo. O pessoal ouvia so música bem agressiva. Entao você esta num período difícil e tem que trabalhar num ambiente deste com pessoas grosseiras, eu tive que respirar fundo… No meu primeiro dia de trabalho, por coincidência pintou no rádio a música “Garota de Ipanema” com João Gilberto, Astrud Gilberto e Stan Getz…e pra mim foi um alivio. E ao mesmo tempo, uma luz. Era como se a música tivesse dizendo “ A gente não te esqueceu. A música me deu um outro ânimo, e então vi as coisas de maneira mais positiva.”

A música Brasileira é diversa, e com seus vários ritmos estilos de interpretações vocais, oferece muitos recursos para auto-identificação e transformação de emoções:

“Quando eu quero ouvir algo mais rasgado, mais dramático eu escuto Elis Regina, eu coloco uma Maria Bethânia. Aquela coisa mais cool, eu vou ouvir a Cibelle. Pra uma coisa mais contemporânea eu ouço a Céu, o pessoal mais da nova geração. Tem tudo pra todo gosto e pra toda situação na música brasileira.”

Aline de Lima

Está com preguiça de ir à academia ou deprimido? Gostaria de mudar seu humor? Veja aqui as sugestões musicais da cantora Aline de Lima para mudar estes estados emocionais:

Para preguiça de ir à academia, ouça Ivete Sangalo

“Preguiça de ir pra academia? Põe um axé da Ivete Sangalo, meu bem e você sai louca…(risos) Eu faço isso. Tem 15 anos que eu vivo na Europa. Primeiro vivi em Estokolmo por 3 anos e tem 12 anos que eu vivo em Paris. Lá tem bem menos luz do que em Paris. Tem uma tempestade lá que fechou o tempo de repente. Tava tudo claro e de repente ficou escuro. E eu sozinha em casa eu vi aquilo, pra mim um fenômeno inédito, e me deu um negócio assim estranho. E eu pensei: “ O que é que eu vou fazer?” Aí eu liguei o som correndo e ouvi: “ Levada louca, levada louca…” (música de Ivete Sangalo). Tem uma alegria da música brasileira… o pessoal critica fala mal que é música comercial e tal. Mas eu acho que é uma maneira popular de expressar esta espontaneidade que a gente tem, que é a marca do brasileiro.”

Para depressão, ouça música tranquila

“Talvez pra depressão você tem que começar com uma coisa mais calma (risos). De repente você ouve algo que vai te entender, uma música de fossa, ou uma bossa nova. Você escuta uma música mais tranquila.  “Nunca fui ao cinema, não gosto de samba, não vou à Ipanema, não gosto de chuva, nem gosto de sol...” (Lígia de Antônio Carlos Jobim).  Aí o cara pensa “ É isso que eu tô sentindo. Não tô com saco pra nada.” E de repente aquilo pode te dar um ânimo diferente. Mesmo que não seja a euforia imediata. Mas pelo menos já dá um outro ânimo.”

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Para informações sobre a carreira de Aline de Lima visite seu www.alinedelima.com

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