Morte, mestre vital!

Como parece ser difícil aceitar nossa finitude e a dos que amamos. Podemos ter várias crenças de vida após a morte, mas a perda física é inevitável. Preferimos evitar o contato com a mesma o máximo possível, ao ponto que não conversamos sobre, nem discutimos o assunto. E eis que de repente, nos vemos diante da própria, através do nosso encontro pessoal, ou do de pessoas próximas a nós. Nesta hora, não há como fugir da realidade da morte. Será que há vantagens em acolher a morte como algo a se refletir no cotidiano? Ou é melhor fazer como sempre fazemos com qualquer outro tópico-tabu: – deixá-la à margem da consciência? Ao escrever estas linhas me lembro das palavras de Buda, que sugere que tenhamos consciência da morte a cada dia. “Para que?”- nos perguntamos. “Ela vai acontecer de qualquer jeito, então pra que pensar em algo tão negativo?” Acontece que a consciência da morte alquimicamente transforma nossa relação com a mesma. De inimiga existencial torna-se mestra vital nos convidando a ter discernimento sobre o que realmente importa ser feito neste breve tempo de existência. A morte nos força a um encontro com o Deus Tempo nos lembrando que nossa vida é limitada pelo mesmo.

Mês passado fui a um lindo show de Gilberto Gil em que ele nos deu um belo exemplo de acolhimento do tema morte e quanto isto pode nos enriquecer. Gil, corajosamente, olhou pro seu futuro de forma curiosa e compôs a música “Não tenho medo da morte”. Confessou à platéia que já teve outras músicas que de certa forma tocavam no tema, porém não tão explicitamente como esta. Faz crer que o envelhecimento contribui para esta reflexão. Na canção ele fala não ter medo da morte, mas sim medo de morrer. Simples e poeticamente, letra e melodia vão nos conduzindo na constatação de que morrer e morte são diferentes. De que o morrer é aqui, é este corpo que morre, que respira, que sente dor. A morte já vem depois, e aí onde se encontra o grande mistério, pois não a conhecemos. Embalado e emocionado pela música pensei no meu fim.

Seja medo da dor, de deixar de existir, ou do desconhecido, o medo com relação à morte é bastante comum. Naturalmente, lidar com a possibilidade de deixar de existir, pode ser fonte de ansiedade e preocupação. Melhor viver o presente, é claro. Mas não permitir uma contemplação sobre a morte- esta que talvez seja a única certeza neste mar de reticências e interrogações em que vivemos- pode nos impedir de viver melhor. Ao agirmos assim, desperdiçamos a chance de se preparar para a mesma, de dar sentido pessoal à trajetória humana, e inclusive de viver mais conscientemente.

Ao refletir sobre a morte talvez encontremos respostas que nos apaziguem ou mais perguntas que podem nos deixar frustrados. Acredito, porém que os ganhos que advêm desta prática aprofundam nossa relação com a vida. Por contraste, a morte nos chama a valorizar cada segundo da nossa existência passageira: cada sorriso trocado, toda lágrima sentida, cada batida no peito, todo horror do mundo e todo esplendor da odisséia universal. Por fim, quando acolhida em vida, a morte pode nos ofertar a consciência de que a vida é um presente precioso. Com este presente em mãos desejo viver meus dias e que quando a morte venha me beijar eu esteja preparado pra soltar tudo o que não me serve. Que meus braços estejam abertos, que minhas mãos não estejam cerradas de ressentimentos, que minha mente tenha aprendido o perdão a mim e aos outros, que meu coração esteja tranqüilo para se entregar ao silêncio de suas últimas batidas, e que eu me lance inteiro ao Mistério.

Que assim seja para todos que assim desejarem!

Este artigo foi originalmente publicado no Jornal Tribuna do Norte 5 Nov 2008 sob o título ‘O Beijo da Morte’. Clique aqui para ler na fonte.
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